Vinicius de Moraes
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vocabulário
canto: poesia.
louvor: elogio, exaltação.
pranto: choro.
pesar: tristeza, desgosto.
vão: insignificante, banal.
zelo: dedicação, cuidado.
Diplomata, dramaturgo, jornalista, poeta e compositor de música popular, Vinícius de Moraes (1913-1980) foi um escritor profundamente lírico. Sua estreia literária se deu em 1933, com a publicação do livro O caminho para a distância, apontado pela crítica como “neossimbolista”. Entretanto, esses primeiros poemas, de caráter místico e religioso, logo evoluíram para uma perspectiva mais material da existência, que abarcava temas da vida cotidiana e, de modo especial, focalizava o amor e a mulher.
Na Antologia poética, em que reuniu a parcela mais significativa da própria obra, o poeta afirma que esta pode ser dividida em duas partes, correspondentes a duas fases evolutivas.
Na primeira fase, a atividade criadora é marcada pela subordinação a temas místicos e religiosos, com direções transcendentes e metafísicas, ligadas ao catolicismo. Predominam os versos mais longos, algo dissertativo, em que se misturam símbolos de contradições internas, às vezes disfarçada por sugestões religiosas e bíblicas, e temas que, no futuro, constituirão a principal matéria da poesia de Vinícius, como sucede em A volta da mulher morena.